Thursday, March 12, 2009

Dicionário político moçambicano: D de dirigente

JÁ tinha avisado que começar é difícil. Estou na quarta letra do alfabeto e ainda não estou no assunto. Continuo nos preliminares. Vou entrar verdadeiramente no assunto quando começar a fazer incursões por alguns autores que fizeram observações interessantes sobre a relação das palavras com o social. Enquanto não chega esse momento, vou preparando o leitor para saber lidar com a imaginação fértil de um sociólogo. Essa imaginação consiste em pegar numa coisa e deixar-se levar pelas suas propriedades para ver até onde chegamos. Muitas vezes ficamos parados no mesmo lugar, mas pensamos que estamos a progredir. Só quando chegamos onde não fomos é que nos damos conta de que estivemos todo o tempo no mesmo lugar.

Forcei a metáfora para introduzir a palavra “dirigente”. É quem dirige, como é evidente. E quem dirige leva outras pessoas para um sítio. A palavra dirigente implica rumo, destino e, naturalmente, seguidores. Implica uma distribuição clara de papéis. Há os que conhecem o caminho, sabem como ultrapassar obstáculos e têm a coragem de conduzir outros. Há os que talvez conheçam o caminho, mas não sabem como ultrapassar obstáculos; há os que sabem como ultrapassar obstáculos, mas não conhecem o caminho; há os que não sabem nem uma, nem outra coisa, mas têm coragem de conduzir outros. O nosso país tem muitos destes últimos. São dirigentes. É mais um verbete que teve os seus tempos áureos. Já não faz tanta parte da nossa dicção política quanto o foi no período imediatamente a seguir à independência, mas, tal e qual a noção de “conquista”, o dirigente continua presente na nossa cultura política.

É uma concepção carismática ou tradicional de autoridade. A comunidade política define-se pelas qualidades extraordinárias, ou tradicionais, de certos indivíduos que reclamam ascendente sobre outros – a maioria – na base dessas qualidades ou na base da preservação de usos e costumes. É evidente que uma comunidade política estruturada nestas moldes não tem nenhuma pachorra para definir o moçambicano como cidadão. O moçambicano é um seguidor. Não é um indivíduo com direitos, direitos esses cuja garantia justificam a autoridade de quem tem poder. Nada disso. O moçambicano, nesta concepção de autoridade, é alguém que tem a obrigação de seguir. É por isso que, nos tempos que já lá vão, os Marcelino dos Santos, Jorge Rebelo, Joaquim Chissano, Mariano Matsinhe, Armando Guebuza e, claro, Samora Machel iam dar “orientações” ao povo. Eles conheciam o caminho (diziam); eles sabiam como ultrapassar obstáculos (asseveravam) e, enfim, eles tinham a coragem de nos conduzir (provaram). Para onde, é outro assunto.

É por isso que quem manda nos nossos partidos é o chefe. E manda mesmo. Ou melhor, para ser chefe tem que saber mandar. Se não sabe mandar, isto é, se quer consultar outros, ouvir a sua opinião, mudar de ideias por achar que houve argumentos interessantes de outros cantos, etc., então, não é dirigente. É Mariazinha. A palavra dirigente, conforme já anunciei solenemente mais acima, já não é usada entre nós, pelo menos não tanto quanto no passado. Mas o vocabulário do qual ela era parte integrante continua bem enraizado nas nossas mentes. O dirigente dirige, isto é, põe e dispõe. E, aí, até nem a legalidade é suficiente para o travar. A legalidade é um expediente que serve quando está em sintonia com o acto de dirigir; quando não está, bom, o azar é todo ele de quem achar que um país deve ser governado na base do respeito pelas leis.

Antes que alguém comece a pensar que estou a comentar o nosso sistema político, apresso-me a dizer que não. Estou a comentar criticamente a nossa cultura política. O que estou a dizer em relação à cultura subjacente à palavra “dirigente” não se restringe ao tipo de atitude que os nossos governantes por vezes revelam. Abarca também cada um de nós, da nação ao nível mais baixo da nossa hierarquia estatal. Estar no topo da hierarquia significa ser dirigente; e ser dirigente significa, infelizmente, supor que todos os outros precisam da nossa mão, e da nossa cana, para chegarem lá. E esse lá onde eles querem chegar não são eles a definir. São os dirigentes. E depois ficam admirados quando não queremos marchar atrás deles.

Maputo, Sábado, 2 de Agosto de 2008:: Notícias


Elísio Macamo - Sociólogo/Nosso colaborador

Tuesday, March 10, 2009

VIOLACAO DOS ESTATUTOS DITOU SUSPENSAO DE BULHA

10 de Março de 2009, 14:47

Sem especificar o tipo de infracção cometida por Bulha, Macuácua frisou, citando os estatutos do Partido, que 'aos membros que violem os estatutos ou o programa, não cumpram as decisões, abusem das suas funções ou de qualquer forma prejudiquem o prestigio do partido, são sancionados com advertência, repreensão registada e a suspensão das funções ou da qualidade de membro de órgão da Frelimo'.

Mas porque Bulha já tinha sido alvo de uma das primeiras duas sanções, segundo Macuacua, coube-lhe, desta feita, a suspensão das funções. Macuácua justificou a não especificação “das infracções” de Bulha, alegando que “não é em sede de conferencia de imprensa que vamos descrever questões de disciplina interna do Partido”.

Macuácua falava a jornalistas na sequencia da realização entre 17 e 19 de Março em curso, na cidade industrial da Matola, da VII Conferencia Nacional de Quadros da
Frelimo, tendo em vista as eleições presidenciais, legislativas e provinciais, agendadas para este ano.

Indicando que a pena aplicada a Bulha não foi a máxima, Macuácua excluiu definitivamente a possibilidade desta decisão ter alguma relação com os resultados eleitorais das autárquicas de 19 de Novembro passado.

Algumas correntes de opiniao assumiam que Bulha e seus companheiros, nomeadamente Manuel Cosaminho, Primeiro Secretario da Frelimo na Beira, a capital provincial de Sofala, caíram na desgraça por causa do seu fracasso em recuperar aquela cidade, a segunda politicamente mais importante do pais, das mãos da oposição.

Apesar de Bulha não ter conseguido derrotar Daviz Simango, principal objectivo da Frelimo e seu candidato, ele melhorou os resultados da Frelimo em Sofala e na Beira, em particular.

Em 2003, nas segundas eleicoes autarquicas, a Frelimo que concorreu com Djalma Lourenço, amealhou um pouco mais de 23 mil votos. Ja a 19 de Novembro passado, nas terceiras, Bulha conquistou cerca de 42 mil votos (33,7 por cento), entretanto insuficientes para suplantar Daviz Simango, que arrecadou mais de 76 mil votos (61,6 por cento).

Ainda em Sofala, a Frelimo conseguiu “arrancar” da Renamo o Município de Marromeu e consolidou a sua posição no de Dondo. A Frelimo conseguiu ainda vencer folgadamente em Gorongosa, vila recentemente promovida a Município, mas que ate então era considerado bastião da Renamo.

Quanto ao surgimento de um novo partido, o Movimento Democrático de Mocambique (MDM), liderado pelo Edil da Beira, Daviz Simango, Macuácua disse não crer que seja de facto um novo partido.

“Oficialmente surgiu um novo partido mas pelos dados que avultam adensa-me a convicção de que é uma cisão de um partido chamado Renamo. Estamos perante uma cisão, existindo agora duas Renamos, uma liderada por Afonso Dhlakama e outra por Daviz Simango”, explicou Edson Macuácua.

Explicou, porem, que quando a Frelimo decidiu, em 1990, introduzir o multipartidarismo estava a abrir espaço para que toda a sociedade tenha espaço para criar partidos políticos.


Fonte: AIMMZ/SN

Saturday, March 07, 2009

MDM FRUTO DA “REVOLUCAO DE 28 DE AGOSTO”

Por Elias Samo Gudo, da AIM, na cidade da Beira

Beira, 06 Mar (AIM) – Um grupo de dissidentes da Renamo, maior partido da oposição em Moçambique, e alguns membros da sociedade civil lançam, esta sexta-feira, uma nova formação política designada por Movimento Democrático de Moçambique (MDM), como resultado daquilo que designam por “Revolução de 28 de Agosto de 2008”.

Segundo o porta-voz do evento, Geraldo Carvalho, 28 de Agosto é a data em que o líder da Renamo, Afonso Dhlakama, decidiu retirar a candidatura do então edil da Beira, Daviz Simango, a favor de Manuel Pereira.

“Portanto, como vocês viveram de perto houve um repúdio total, uma revolução durante a qual, pela primeira vez, as bases da Renamo desobedeceram a liderança da Renamo, desde aquele dia para sempre. Por isso nós chamamos de Revolução de 28de Agosto”, explicou Carvalho.

Para o efeito, a nova formação política realiza a sua Assembleia Constitutiva, um evento que marca a constituição formal do MDM, entre os dias 6 e 7 do corrente mês na cidade da Beira, capital provincial de Sofala, no centro do país.

Durante o evento, possivelmente, ainda nesta sexta-feira, deverá ser anunciada a liderança do novo partido.

A cerimónia teve início cerca das 9.30 horas, no anfiteatro da Faculdade de Medicina da Universidade Católica.

Participam no evento um total de 375 delegados dos 128 distritos existentes em Moçambique, tendo contribuído cada distrito com um número que varia de um a três delegados.

Segundo o porta-voz do evento, foram também convidados os seus representantes vizinho Zimbabwe e Africa do Sul.

Participam ainda no evento cerca de 120 convidados, entre nacionais e estrangeiros, incluindo um representante da Liga dos Direitos Humanos de Moçambique (LDH), do Partido Social Democrata de Portugal, e representantes do corpo diplomático acreditados em Moçambique.

Segundo Carvalho, prevê-se a chegada, ainda durante esta sexta-feira, de um representante do Movimento para Mudança Democrática (MDC), maior partido da oposição, zimbabweana, actualmente liderado pelo recém-nomeado primeiro-ministro, Morgan Tsvangirai.

Entre os presentes, destacam-se vários membros da Renamo em todo o país, incluindo Ismael Mussá, deputado da Assembleia da República (AR), o parlamento moçambicano, bem como de Carlos Jeque, candidato presidencial independente nas primeiras eleições multipartidárias de 1994.

Falando no seu discurso de abertura, o Dr. Eduardo Elias, chefe da Comissão de Preparação desta Assembleia Constitutiva do MDM, explicou que a escolha da Beira para a realização deste evento deve-se ao facto de esta cidade estar situada num dos pontos mais acessíveis do país, em termos de distância a percorrer pelos delegados vindos de todas as províncias. Também serve de uma homenagem aos compatriotas da “Revolução de 28 de Agosto de 2008”.

Elias, proeminente jurista, foi deputado da Assembleia da República entre 1999 e 2004, pela bancada parlamentar da Renamo-União Eleitoral.

Na ocasião, Elias explicou que o MDM surgiu e cresceu sem recursos financeiros e logísticos, estrutura e organização formalmente constituídas, sendo a sua esperança a determinação em contribuir para a defesa de uma democracia verdadeiramente pluralista e participativa.

Durante o evento, os participantes vão discutir e debater estratégias para a busca de um espaço político, aproveitar as vantagens comparativas, e visão orientadora para que, efectivamente, o povo moçambicano avance rumo a um desenvolvimento inclusivo.

“Só o tempo dirá se este encontro ficará recordado na história como o início de uma nova etapa na jovem democracia multipartidária moçambicana, e cabe a nós esta responsabilidade colectiva”.

Por isso, disse Elias, o MDM deve avaliar atentamente a situação politica, social e económica do país, com realismo, honestidade e muita frontalidade.

“Precisamos de uma oposição forte, com sentido de Nação e capacidade de monitoria efectiva e que responsabilize a quem governa, para prestar conta a sociedade Moçambicana”, disse Elias, para de seguida acrescentar “não podemos ficar passivos e a assistir, sem nada fazer, para defender as liberdades que conquistamos. É porque o perigo de regresso a mono partidarização é real e fatal para a democracia, que surge uma nova força poíitica em Moçambique, o MDM”.

Falando a imprensa a margem do encontro, Carvalho explicou que, após a “Revolução de 28 de Agosto”, Daviz Simango foi pressionado pela população a candidatar-se como independente.

“Depois da sua vitória, muita gente convenceu-o a avançar e formar um movimento político. Inicialmente, foi apenas uma sugestão que a nossa equipe de trabalho, que tem vindo a trabalhar com Daviz Simango, analisou até que se apercebeu que a mesma afinal era de dimensão nacional”.

Foi na sequência desta conclusão, que a equipe de Daviz Simango decidiu avançar para os distritos e localidades, onde trabalharam durante cerca de três semanas para auscultar a vontade do povo.

“No fim desse levantamento apuramos que havia, de facto, uma grande vontade de avançar com a formação de um movimento liderado e inspirado por Daviz Simango”, disse Carvalho.

Prosseguindo, Carvalho explicou que se seguiu um processo de recolha de assinaturas de intenção, daqueles que acreditam que Daviz Simango deveria avançar com a formação de um movimento, tendo angariado em menos de 21 dias cerca de 279.000 assinaturas. Isso foi encorajador porque mesmo nas zonas mais recônditas a população estava a par daquilo que estava a acontecer.

“Efectivamente, toda a gente via em Daviz Simango uma alternativa de governação. Assim, decidimos sentar e convencer Daviz Simango em avançar com um movimento”.

Todo este processo foi feito de uma forma muito minuciosa, incluindo todos os pormenores jurídicos sobre as suas implicações na governação no município da Beira caso Daviz Simango seja eleito líder do movimento.

Actualmente, segundo Carvalho, o MDM constatou que as massas querem que Daviz Simango avance como seu candidato para as presidenciais do corrente ano e que esta nova formação política concorra nas eleições provinciais e legislativas.

Foi neste âmbito que o MDM decidiu lançar o seu projecto de estatutos e programas nas localidades e distritos para sua discussão.

Concluído esse processo, a presente Assembleia vai aquilo que já foi estudado a nível dos distritos das localidades e das cidades.

Questionado sobre o custo da realização do evento, Carvalho disse que o mesmo foi suportado com as contribuições e quotas dos membros e voluntários e do empresariado nacional, tendo conseguido arrecadar mais de um milhão de meticais (cerca de 40.000 dólares).

Sobre o número de membros, Carvalho disse não ser uma questão pertinente, antes é necessário formalizar a existência do partido.

“Por isso, agora vamos institucionalizar o movimento e depois avançar com as inscrições para os membros”, disse o porta-voz.

Não posso confirmar se o MDM vai concorrer para as presidenciais e legislativas porque é esta a assembleia que vai deliberar se existem condições para avançarmos e como avançarmos, rematou Carvalho.


Fonte: AIM SG/DT


Wednesday, March 04, 2009

Frelimo suspende secretariados em Sofala

O PARTIDO Frelimo anunciou ontem, formalmente, a suspensão dos mandatos dos secretariados dos comités provincial de Sofala, dirigido por Lourenço Bulha, e da cidade da Beira, encabeçado por Manuel Cosominho, passando estes órgãos a ser chefiados, até à eleição dos novos corpos directivos, pela brigada central liderada pelo membro da Comissão Política Alberto Chipande.

Segundo um comunicado distribuído à Comunicação Social ao princípio da noite de ontem, a Comissão Política da Frelimo, reunida na sua 23ª sessão extraordinária, no dia 27 de Fevereiro passado, no uso das competências que lhe são conferidas pela alínea c), número 1 do artigo 64 dos Estatutos do Partido, decidiu enviar a brigada central chefiada por Alberto Chipande para a província de Sofala com o objectivo de apoiar as actividades de revitalização dos órgãos do partido a todos os níveis.

A referida brigada iniciou a sua actividade na terça-feira, com a realização da reunião do secretariado do comité provincial alargado a outros quadros, seguida de uma outra, ontem, com os membros dos comités central e provincial residentes na cidade da Beira e outros quadros.

Nas reuniões havidas, segundo refere o documento, a brigada anunciou as decisões da 23ª sessão extraordinária da Comissão Política, que orienta para a realização de eleições internas a nível de células, círculos, zona, distrito, cidade e provincial, com o objectivo de revitalizar os órgãos do partido e para a suspensão dos mandatos dos secretariados provincial e da cidade.

Faziam parte do secretariado provincial, para além de Lourenço Bulha, como líder, Chaquil Aboobacar, Zandamela Juga, Tomás Loiane e Bernardete Roque, enquanto a nível da cidade Manuel Cosominho era o secretário, secundado por Félix Afonso e Matilde Valente.

Fonte: Jornal Notícias

Thursday, February 19, 2009

Aeroporto Eduardo Mondlane, sim

Editorial

Porque não Ponte Urias Simango, entre Caia e Chimuara?

Na última edição do Semanário ZAMBEZE, Francisco Rodolfo, solicito funcionário do Ministério dos Transportes e Comunicações, membro activo do Partido Frelimo e cronista regular deste semanário, propôs na sua habitual rubrica “MAPUTADAS” que o nome do primeiro presidente da Frente de Libertação de Moçambique, Doutor Eduardo Chivambo Mondlane venha a ser atribuído ao Aeroporto Internacional de Maputo. A proposta veio em boa hora. E teve o mérito de fazer jus a um dos homens que conseguiu unir num só movimento os grupos que já pensavam em conseguir a auto-determinação e independência do País mas que, divididos, estavam a encontrar barreiras difíceis de transpor e a adiar a emancipação de todo um povo.

A proposta de Francisco Rodolfo peca apenas por estar incompleta, a nosso ver.
Eduardo Mondlane foi o primeiro presidente da Frente de Libertação de Moçambique. Só isso basta para que todos os moçambicanos se revejam nele que foi líder da marcha em que os nacionalistas das mais variadas tendências se uniram até se dividirem apenas com a extinção da Frente e com a consequente criação, sob a mesma sigla ou acrónimo, FRELIMO, do Partido Frelimo que passa a ter propósitos diferentes, abandona o princípio que até então vigorava, de inclusão, e passa a ter como desígnio servir apenas certas pessoas num claro esforço de exclusão dos que defendiam outras valências. Acabou tudo, como se sabe, com uma tremenda guerra civil.

Nessa epopeia pela união de todas as tendências políticas e ideológicas, numa única frente pela independência nacional – a Frente de Libertação de Moçamnbique – o sulista Eduardo Chivambo Mondlane não esteve só. Com Mondlane, no posto de vice-presidente da ex-Frente de Libertação de Moçambique, esteve também o Reverendo Urias Simango, um cidadão do Centro-Norte do país. E com Mondlane e Simango estiveram muitos outros heróicos combatentes das províncias mais próximas do Rovuma.
Concordamos plenamente que Eduardo Chivambo Mondlane tem perfil para que o seu nome seja atribuído ao Aeroporto Internacional de Maputo.

Concordamos, sobretudo pela dimensão da obra dele e de todos os que revistos nele uniram os moçambicanos no projecto pela auto-determinação e independência. Concordamos não apenas por Eduardo Mondlane em si, mas, sobretudo, pelo que nele se personificava. E concordamos mais do que tudo porque se está a propor um nome de alguém que não está vivo.

Estamos absolutamente contra a prática que se tem visto por aí de se dar a obras publicas o nome de alguém ainda sobrevivo. Quanto a nós são actos de verdadeiro culto da personalidade próprios de regimes totalitários e de mentes absolutistas. Opomo-nos abertamente a esses egocentrismos. E achamos que ficaria bem a isso também se passarem a opor todos os moçambicanos com bom senso. Culto da personalidade dá sempre errado. Acaba pela certa em DITADURA. Já vimos esse filme!…

Sabendo também que está para breve a inauguração da Ponte do Zambeze, entre Caia, na província de Sofala, e Chimuara, na província da Zambézia, ao concordarmos que se dê o nome de Eduardo Mondlane ao Aeroporto Internacional de Maputo, queremos também aqui deixar proposto que se dê a essa nova obra de arte e de grande engenharia o nome do Reverendo Urias Simango.

Quis o destino que a Ponte fosse construída em ambiente já de fraternidade, por cidadãos do ex-país colonizador e por moçambicanos já livres e senhores da sua terra. Para que isto fosse possível começou por contribuiu também Urias Simango, a secundar Eduardo Mondlane.

Urias Simango, note-se, não foi a peste que certos senhores pintam. Ele não foi só o primeiro vice-presidente da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO). O reverendo Urias foi também um dos obreiros da unidade nacional, até o começarem a perseguir por defender um regime como o que hoje temos em Moçambique, com características que quem o mandou matar, na época odiava mas hoje faz delas a sua bandeira já com os bolsos cheios de meticais e dólares, numa superior forma de capitalismo a que arrogantemente em tempos se opuseram os que acabaram por matar os que com eles discordavam.

Urias Simango foi ostracisado e vilipendiado apenas porque defendia um regime de economia de mercado e de respeito pelos direitos humanos. Defendia que a unidade só seria possível com respeito pela diversidade. Defendia o pluralismo e o direito à diferença. Defendia a tolerância. Hoje, já em liberdade, depois do Acordo Geral de paz em Roma, sem ameaças das armas e de insultos, já podemos falar dos seus feitos sem irmos parar aos campos de extermínio a que chamavam de “reeducação”.

O reverendo Urias Simango contribuiu tanto como Mondlane para a unidade que se julgou imprescindível à formação da Frente de Libertação de Moçambique. O seu defeito pode ter sido não ser marxista-leninista, mas esse defeito a história veio a julgar. Os que lhe viam tantos defeitos por isso hoje são das mais ricas e abastadas figuras do regime que vigora em Moçambique. Afinal é doce o pão que o diabo amassou!…
Não queremos levantar fantasmas. Queremos apenas dizer que os ideais de Urias Simango vingaram e o seu nome ficaria bem na nova ponte do Zambeze. Mas não só por isso. Não nos podemos esquecer que o reverendo não foi em algum momento preso pela Polícia Tanzaniana por suspeita de assassinato de Mondlane em casa de Betty King, como chegaram a ser Joaquim Chissano, Marcelino dos Santos e Pamela Santos. Foi até Urias que dirigiu as exéquias fúnebres do Presidente Mondlane.

Com o nome de Mondlane no Aeroporto de Maputo, a imagem de unidade ficaria para a eternidade a ser passada a todos nós e aos que nos visitam, defende Francisco Rodolfo.

Com o nome do Reverendo Urias Simango atribuído à nova Ponte do Zambeze – nesse grande rio que tanto nos orgulha – já que a outra ponte a montante, na Cidade de Tete, se chama Ponte Samora Machel, ficaria fechado o ciclo da reconciliação entre os moçambicanos. A unidade que hoje ainda tanta falta também nos faz, sairia reforçada.

Com esse gesto nobre, quem tem dirigido o país deixaria de continuar a ser visto como quem apenas sabe homenagear os heróis do Sul.

Moçambique ganharia muito com um gesto nobre dessa dimensão.
Se o presidente Armando Guebuza prescindisse de dar o seu nome ou o de Joaquim Chissano à nova ponte do Zambeze e optasse por aproveitar o momento para ele próprio se redimir dos erros graves de que foi cúmplice no passado relativamente a Urias Simango, só sairia a lucrar com isso.

Se o actual chefe de Estado tiver a coragem de dar o nome de Urias Simango à ponte do Zambeze, quando ele morrer certamente que a história o lembrará para sempre. Se lhe faltar força para isso, talvez a ponte do Zambeze um dia venha a ter de mudar de nome. A reconciliação fica adiada.

Os gestos de quem hoje promova a reconciliação farão de quem os assuma, alguém sublime. Estamos cá para ver o que se segue.

(Z) 2009-02-19 06:24:00

Retirado do Canal de Mocambique

Wednesday, February 18, 2009

Subsídios para os que pensam em formar partidos

SR. DIRECTOR!

Em primeiro lugar recorrendo à autoridade académica do politólogo António José Fernandes, dizer que partido define-se como sendo organizações que lutam pela aquisição, manutenção e exercício do poder, têm, mais ou menos, um caracter histórico e duradouro. Existem várias perspectivas de explicação do surgimento de partidos, mas para o nosso propósito usaremos a perspectiva do politólogo Stain Rokkan, segundo a qual os partidos são resultados de clivagens políticas de vária ordem que são expressos na sociedade através de interesses e valores. Essas clivagens, que são resultados de interesses incompatíveis entre grupos, vão se enraizando devido à duração e formando a expressão histórica que permitirá criar uma base sólida de apoio.

Fique claro, toda esta explicação teórica de formação de partidos não dita os requisitos para criação de partidos políticos, mas pode ajudar a reflectir sobre os elementos que solidificam, sob forma de base, esse tipo de organizações, se é que realmente se pretende, não somente um partido, mas um partido com impacto social. Na prática, para o caso de Moçambique, a actual Constituição da República permite que indivíduos de forma organizada formem associações, incluindo partidos. Esse dispositivo constitucional de demonstração democrática é resultado de uma clivagem que, em certa medida, durou 16 anos e deu base histórica para a criação, essencialmente, de um partido político com impacto social a nível da estrutura social nacional – a RENAMO. Embora permitiu e, ainda, permite que outros partidos se formem, mas com pouca, se não nenhuma base histórica. Daí que o nosso sistema político seja dominado por apenas dois partidos, a FRELIMO e a RENAMO, infelizmente.

Pensando em Daviz Simango, uma figura já carismática lá para os lados de Chiveve (alargando-se para quase todo território nacional) e na possível criação de um partido político, diria que estamos perante um indivíduo capaz de liderar um partido (ou mesmo uma nação), mas sem subsídios suficientes e sem bases históricas da estrutura social para a criação do mesmo. Mesmo estando na situação de pressão das ex-bases da Renamo e de todo o apoio que recebeu e recebe a nível nacional, através das mais de 100 mil assinaturas para a criação de um partido, ainda não há condições sociais para esse fim.

É necessário que se deixe que os conflitos que fizeram com que Simango saísse da Renamo ultrapassem sua figura, para estarem a um nível mais abrangente. Reparem que todo o discurso está associado à figura de Simango. Tudo indica que este está a criar um partido porque não foi aceite de volta na Renamo. As bases estão a apoiar Daviz Simango porque a Renamo não acatou com suas exigências. Isso não é suficiente. Será que as bases vão deixar duma hora para outra, todo seu legado histórico e "político-identitário" associado à anterior organização política para apoiar um novo partido, que ainda não tem conteúdo para fazer parte da história! Bom, até podem fazer, mas por quanto tempo podem sustentar em caso de uma eventual derrota nas próximas eleições? Apesar da sua popularidade, que todos reconhecemos, e de ter sido o primeiro eleito independente em Moçambique, apenas estão criadas condições para ele liderar, em princípio o município, com mais tranquilidade. Mas ainda não há condições do mesmo criar um partido que esteja ao nível da sua popularidade e que tenha impacto capaz de enfrentar os dois principais partidos. Uma coisa é apoiar Daviz, outra é apoiar esse tal partido.

Os partidos políticos não podem ser resultado de simples clivagens políticas que envolvem indivíduos. Os partidos que são criados dependendo da figura de um indivíduo, que é, normalmente, o seu líder, não garantem solidez e correm o risco de serem temporários. É necessário que hajam motivos mais do que pessoais, é necessário que hajam clivagens (diferenças na forma de olhar para as coisas, de encará-las, de as solucionar) que se façam sentir na vida das pessoas, que representam os anseios de uma categoria considerável de indivíduos e que seja uma proposta e alternativa para o bem–estar da maioria populacional. Deve ter um carácter histórico que fundamente sua existência e sua manutenção. E não apenas associada à capacidade de liderança de um indivíduo e nem na honestidade da gestão das instituições dirigidas por este. Enfim, o partido não deve ser criado só porque existe alguém com capacidade para dirigir, devem existir razões mais profundas da estrutura social que sustentem a existência do mesmo.

S. Fredson Fadil

Saturday, February 14, 2009

Vamos ter um “quinto poder”? (Conclusão)

Retirado do Jornal Notícias

SR. DIRECTOR!

E, cá entre nós, assiste-se por via da internet, espectacularmente, um desfile de imoralidades, plágios e invasões à privacidade das pessoas, sem que isso represente uma preocupação. E perguntar-se-ia: quanto material académico ou intelectual do Dr. Carlos Serra, por exemplo (creio sem uso autorizado dele) e de outros bloguistas, já circulou furtivamente em “sites” individuais ou informais, por um simples capricho? Acredito que tanto, mas, tristemente abusando da facilidade criada por este e outros intelectuais de colocar ou compartilhar alguns saberes tecnico-científicos e novidades das realizações da sociedade, sempre a bem do desenvolvimento do país. Dá-se aqui o exemplo do Dr. Carlos Serra como um dos blogues mais procurados do país e no além-fronteiras. Publicidade a parte, também sou utente.

Maputo, Sábado, 14 de Fevereiro de 2009:: Notícias

Com a falta de livros no mercado nacional, sobretudo com a incapacidade ostentada pela maioria da população estudantil, incluindo a docente e intelectual, o recurso para a aquisição das publicações e saberes tecnico-científicos tem sido à cibernética, através de pesquisas na internet, mais concretamente. E essa busca não tem sido, em muitas vezes, regrada, com os plágios a vegetarem impunemente, tal como é impune hoje o negócio de música e outras produções artísticas e intelectuais. No plágio intelectual até nem se cita o autor, enquanto no musical aparecem lá as fichas técnicas pintadas e com timbre falsos, mas sempre em prejuízo do autor e das editoras.

É quase que unânime a afirmação de que a blogosfera é, actualmente, o parlamento para os que não se consideram representados nos verdadeiros parlamentos convencionais, isto é, parlamentos formais.

Portanto, a blogosfera é tratada como um fórum potencialmente idealizado para aqueles grupos identificados ou aderentes inconscientes fluírem as suas ideias e projectos jamais ou raramente sublinhados pelos políticos e pelos “media”, para o caso vertente. Os frequentadores da blogosfera partem do pressuposto de que podem esgotar “n” assuntos numa única manhã mais do que o verdadeiro parlamento pode esgotá-los em duas ou mais sessões ordinárias e extraordinárias juntas, porque no circuito dos blogues reina o informalismo e o directo ao assunto, mas tudo à volta dos temas que se julgam tocar mais directamente à vida quotidiana não só dos seus frequentadores, mas também, e sobretudo, da maioria do povo desfavorecido e sem voz. Às vezes, com temas sensíveis para a manutenção da ordem do Estado ou do poder político e da governação do dia. Sempre, e geralmente como característica, na presunção de que estão em discussão aqueles problemas que os legítimos representantes do povo no parlamento, por exemplo, não os tratam, não obstante serem assuntos mais candentes e imediatos da vida. Neste fórum, portanto, na blogosfera, de modo geral, os seus membros não estão rigorosamente identificados, sobretudo quanto a autorias e emissores das informações que nele veiculam. E é ponto acente de que na blogosfera reina a emoção, a solidariedade e, acima de tudo, o desabafo total de alguém que se acha indevidamente representado lá onde se tomam as principais decisões sobre a vida da sua comunidade ou do país. E deixa-se muita massa gasosa no ambiente, em jeito de provocação informativa, incluindo autênticas ratoeiras para a comunicação social, geralmente a distraída, que a pega como matéria noticiosa, não obstante carecer de fontes e credibilidade ético-comunicacional. Aliás, até nem é sempre uma desvantagem ultimamente o “quarto poder” recorrer ao “quinto poder” nos dias que correm, sobretudo nos espaços onde a liberdade de expressão e de Imprensa é ainda uma miragem ou é de difícil exercício. O avanço que as tecnologias de informação e de comunicação deram é nos possível nos dias que correm acedermos, voluntária ou involuntariamente, consciente ou inconscientemente a vários conteúdos informativos, muitas vezes de natureza propagandística, publicitária e de calúnia ou difamação. Algumas tocam directamente a vida dos utentes dos sistemas de informação e comunicação, os seus grupos sociais, as suas instituições ou empresas, comunidades, vidas privadas e públicas, e por aí fora. Outras nem por aí.

Recuando para o dia 5 de Fevereiro de 2008, face aos acontecimentos das cidades de Maputo e da Matola, referentes à crise de transporte urbano, facilmente podemos sustentar o quão é poderosa a blogosfera hoje, na totalidade da sua componente tecnológica de informação e de comunicação (TIC). No dia 4 de Fevereiro de 2008, os computadores conectados à internet, provavelmente, e o Short Message Service, o vulgo SMS (serviço de mensagens curtas) dos telemóveis foram capazes de provocar um vendaval público nestas duas cidades. Choveram mensagens por telemóveis, telefonou-se do fixo, foram reenviadas milhares e milhares de mensagens, apelando para um total boicote aos meios de transporte semicolectivo e estes a não se fazerem á rua sob o risco de sofrerem consequências inimagináveis, apelos para ninguém ir ao posto de trabalho no dia 5, etc., etc.. E deu no que deu, como todos soubemos e assistimos.

A mensagem do informal triunfou e, sobretudo, encontrou um terreno fértil, chamado Moçambique, incontrolado, ainda sonâmbulo no cômputo geral, em termos de legislação e de crimes cibernéticos. Foi a força da blogosfera, esse novo parlamento onde os frequentadores desconhecidos ou conhecidos entre si distribuem e discutem assuntos que acham mais importantes da sociedade, mas esquecidos pelos “media” e pelos detentores dos poderes. Este é apenas um exemplo do fenómeno da blogosfera. Podíamos também recordar a força que teve o telemóvel em 2006, aquando da passagem do sismo, cujo epicentro se localizou em Machaze, província de Manica. Em menos de 1 minuto o país e o mundo já sabiam do que tinha acontecido. Podíamos também recuar até aos recentes tristes episódios do mundo artístico do nosso país, desde as cenas pornográficas que circularam na blogosfera envolvendo artistas até considerados de craveira, as imagens sexuais adulteradas que invadiram os computadores e os telemóveis moçambicanos, e por aí fora.

Portanto, é facto para concluirmos que em Moçambique o fenómeno da blogosfera é também uma realidade e preocupante. É preocupante no sentido de que tudo está a acontecer à mercê de quem a frequenta, oficiosamente liberalizado ao expoente máximo da classificação. Mas nem com isso se pretende dizer que tudo o que circula nesse novo mundo comunicacional é imoral e inútil, pois, existem “blogs” (a verdadeira designação desses “sites” na versão inglesa) que são autênticas tábuas de salvação académico- intelectual e cultural para muitos que não têm capacidade económica para coleccionar publicações físicas ou adquirir conhecimentos partilhados a partir das ofertas de grupos intelectuais (e aqui voltaria ao exemplo do Dr. Carlos Serra, das blogspots Bantulândia, Macua, África, etc.).

A blogosfera está a ganhar terreno no campo comunicacional hodierno porque nesta as pessoas não têm vigilantes, portanto não sofrem censuras. Quando muito, são auto-censuras. É um espaço a que muitos líderes de países ou grupos económicos e políticos recorrem para espreitar o outro lado do discurso popular, dado que na blogosfera circulam desabafos que o próprio cidadão não consegue transmitir directamente a quem de direito ou ao seu legítimo representante político nos fóruns de tomada de decisão.

Tem o único objectivo de levantar um possível debate público que desague na resolução de problemas da sociedade em que se encontra inserido. O sistema de blogues é muito simples e barato, porque basta ter um computador ligado à rede da internet e angariar outros “conhecedores das matérias” com quem debater. Todavia, nem sempre é preciso angariar membros, pois eles surgem, mesmo que de forma inconsciente. Duvida-se é se tal “quinto poder” poderá mesmo triunfar em África, mais concretamente no nosso país, se partirmos do pressuposto de que mesmo lá no Ocidente a batalha não é assim tão fácil, porque muitas das coisas não passam de simples circulação de ideias de um para o outro, de forma desinteressada e informal, aliás, informal tal como é actualmente a própria blogosfera. Oficialmente, e num passo bastante avançado no uso da blogosfera, já estão a funcionar os Yo-tube, quer por porta-vozes oficiais quer por chefes de estado ou responsáveis religiosos na emissão das suas mensagens consideradas importantes, porque estes são mais sofisticado, em que ao mesmo tempo combinam a voz e a imagem e com o emissor identificado. É mais um meio de comunicação de massas.

Mas a ideia da criação do tal poder substituto dos actuais “media” e a febre de preocupação não é assim tão recente como pode parecer, pois, em 2003, o director do jornal francês, “Le Monde Diplomatique”, Ignacio Ramonet, propôs a criação de um “quinto poder”, alegando haver um acentuado descrédito do actual “quarto poder”, visto como corrompido pelos poderes instituídos. Na visão de Ramonet, os actuais meios de comunicação social (MCS), os clássicos, são um instrumento de acção dos demais poderes, sobretudo o económico. O Director do “Le Monde Diplomatique” propunha ainda a criação de um observatório internacional dos “media”, isto é, uma “Global Media Watch”, de modo a tornar a comunicação e a informação pertencentes a todos os cidadãos. Mas esta visão, tal como recorda o luso Vital Moreira, e muito bem, já era efectiva antes da criação dos blogues, e não obstante fazendo-se sentir, às vezes, inconscientemente.

É o debate que já se lançou no mundo e, se calhar, também em Moçambique. Daí a pergunta vácua: Teremos no futuro um “Quinto Poder”? )
JAFAR BUANA - Jornalista (colaboração)

Thursday, February 12, 2009

Por causa da fome: População exige demissão do administrador em Mogincual

A POPULAÇÃO do posto administrativo de Namige, distrito de Mogincual, em Nampula, exige a demissão do respectivo Administrador, Oliveira Rareque. Em causa está a alegada apatia face à insegurança alimentar que afecta cerca de 40 mil habitantes daquela região costeira.
Em consequência da fome, nove pessoas perderam a vida entre os meses de Outubro e Novembro, ao consumir tubérculos como alternativa.

Namige foi a região mais flagelada em toda costa da província de Nampula pela passagem do ciclone “Jokwe” em Março último, facto que ditou o fracasso da campanha agrícola. Os habitantes que se alimentam de mangas e de vários tubérculos venenosos, não encontram outro culpado senão o administrador distrital, Oliveira Rareque, alegadamente, pela demora que se regista na prestação de assistência alimentar para socorrê-los da difícil situação em que se encontram mergulhados.

Alguns habitantes ouvidos pelo “Notícias” consideram que o Governo distrital tem andado alheio ao problema da fome que afecta a região, pois, poderia lançar pedido de apoio junto dos seus parceiros visando a mobilização de recursos, o que ainda não foi feito.

Relatam que desde a ocorrência do primeiro óbito, o mês passado, por consumo de tubérculos venenosos, o executivo distrital liderado por Oliveira Rareque, não enviou nenhum técnico ao terreno por sua iniciativa, senão quando da ida de uma equipa multissectorial integrando quadros do Instituto Nacional de Gestão de Calamidades (INGC), em Nampula, Agricultura e Acção Social, que fez recomendações no sentido de apoiar numa primeira fase os idosos por serem os mais afectados pela fome.

César Tembe, delegado provincial do INGC em Nampula, disse que o levantamento efectuado apurou que as causas da fome em Namige não derivam de uma calamidade e por conseguinte a sua instituição deixa de ter um papel relevante no socorro dos necessitados senão a Acção Social e Agricultura, esta última na providência de insumos.

Daudo Mussa, chefe do posto administrativo de Namige, disse, no entanto, quando contactado telefonicamente a partir de Nampula, que nenhum apoio alimentar proveniente de uma instituição governamental foi canalizado até à data aos necessitados, antevendo o agravamento da situação de insegurança alimentar nos próximos tempos na sua área de jurisdição.

O consumo de Nathia, um tubérculo típico da região costeira, é comprovadamente fatal se não forem cumpridos escrupulosamente os procedimentos para a sua preparação baseada na fervura por um período mínimo de duas horas e mais uma mergulhado num recipiente cheio de água, processo que visa eliminar o veneno característico.

Maputo, Terça-Feira, 2 de Dezembro de 2008:: Notícias

Monday, February 09, 2009

Segunda volta em Nacala - Porto: Há graves atropelos à lei eleitoral

(Maputo) O Observatório Eleitoral manifestou, semana finda, a sua inquietação em relação a alguns aspectos relacionados com a maneira e rumo que estão a tomar a tomar campanha e propaganda eleitorais da segunda volta, para a eleição do futuro presidente do município da Cidade de Nacala - Porto, cujo processo de votação é já nesta quarta-feira naquela circunscrição da província de Nampula.

Segundo esta organização cívica, a cidade de Nacala-Porto, tornou-se desde o inicio da campanha eleitoral desta segunda volta, num palco de autênticos atropelos à lei eleitoral e aos princípios mais elementares da convivência democrática e ética.

Agressões físicas, intimidação de cidadãos por pertenceram a um ou outro partido político, instrumentalização de crianças para lançar impropérios aos adversários políticos, campanha e propaganda eleitorais nas mesquitas e igrejas, uso das viaturas do Estado, destruição de materiais de campanha por parte de apoiantes dos dois candidatos, fazem parte das acções apontadas pelo Observatório Eleitoral como estando a perigar e a atropelar as leis democráticas. Estas acções perigam a paz, a segurança dos munícipes e a própria urbe.

Aquela organização, apela à Comissão Nacional de Eleições para que assuma o seu papel de fiscalizador do cumprimento da lei eleitoral e de todos regulamentos atinentes ao processo eleitoral e a sancionar todos os prevaricadores, como forma de desencorajar os actos praticados naquele município. Assim, vai-se permitir que todas partes tenham a mesma oportunidade de exercer o direito à campanha e propaganda eleitorais de foram pacifica e segura, pois todos têm os mesmos direitos. (Redacção

Fonte: Savana

Thursday, January 22, 2009

Notas sobre as autárquicas

ESPINHOS DA MICAIA

Escrito por Fernando Lima

Não é possível, 24 horas depois do voto em 43 autarquias moçambicanas, ser-se peremptório sobre tudo o que aconteceu no filme do dia 19 de Novembro. Mas é incontornável que as eleições foram o acontecimento mais marcante da semana.
E por isso as minhas notas, mesmo que elas não tenham todos os detalhes e ingredientes supostos de fazer uma boa crónica.

E, ao contrário do que acontece habitualmente, os holofotes das autárquicas não estiveram virados para a capital, mas para a Beira, a segunda maior urbe moçambicana.
Daviz Simango, contra ventos e marés, alvo das acusações mais incríveis, alvo da máquina partidário-estatal que contra si montou a Frelimo em aliança contra natura com a Renamo, o candidato independente selou uma vitória que ultrapassa a perícia própria de cada candidato que ao pleito se apresentou.

Num sistema político em que o importante são os partidos e as listas que os partidos apresentam, Daviz passou o primeiro teste de um “candidato apartidário” no sistema implantado após a Constituição multipartidária de 1990.
Para além de outros símbolos que certamente começarão a emergir após a consolidação do seu triunfo, a opção beirense mostra que é possível fazer-se política em Moçambique sem se ter necessariamente vinculação partidária. O que torna inexorável a colocação da “questão assassina” sobre a autarquia capital. Se Comiche ousasse, e esteve sempre fora de questão essa premissa, outro galo cantaria em Maputo.

A votação na Beira foi notável e era esperada. Mas o país, no seu todo, mostrou uma assinalável vitalidade ao arrastar para as mesas de voto, provavelmente, metade do eleitorado potencial. É cedo para se estabeleceram vaticínios e é particularmente apressado dar os louros aos organismos técnicos que organizaram as eleições. Investigações mais aturadas certamente ligarão a proximidade da votação com o registo, a limpeza dos cadernos de recenseamento anteriores, a empatia com movimentos eleitorais importantes como foi o Zimbabwe, a Zâmbia, Angola e porque não, o próprio fenómeno Obama, embora seja difícil reconhecer a visibilidade do senador de Chicago em Alto Mulócuè e no Chibuto. Os organizadores das eleições podem também falar a seu favor do baixo percentual de votos nulos e brancos, uma prova de que quem votou sabia o que estava a fazer. Menos simpático terá sido o treino dos sazonais para as mesas de voto. Locais que teoricamente estavam preparados para lidar com mil eleitores, tiveram de prolongar as suas sessões quase até à meia noite para contabilizar uma média de 400 boletins de voto.

Quem está definitivamente a lamber as feridas é Afonso Dhlakama, pese a sua postura auto-assumida de corredor de fundo, à semelhança de Lula da Silva e Abdulaye Wade.
As derrotas próximas que se anunciam em Marromeu, Angoche, Nacala, Ilha, Gondola e Mocímboa da Praia são claramente decorrentes de um movimento que, mesmo com a reconhecida falta de meios, poderia ter feito muito mais para apoiar os seus candidatos. O clamoroso caso da Beira, a verdadeira birra com Daviz Simango, foram apenas o desastre anunciado que a ninguém surpreende. Está ao seu alcance repetir o naufrágio nas eleições gerais do próximo ano.

Nos meios oficiais, nos próximos dias, haverá anúncio de retumbante vitória. É verdade. Um engenheiro de linhagem no Chiveve foi o único que contrariou o sonho hegemónico.

Mesmo assim, há muitas outras estórias para contar na história de cidadania que os moçambicanos vão fazendo todos os dias.
O 19 de Novembro foi mais um patamar.

Thursday, April 19, 2007

Falta de hábito ao trabalho perpetua fome no país - considera Presidente Armando Guebuza

O PRESIDENTE Armando Guebuza “quebrou o gelo” durante a visita que efectuou à província da Zambézia terminada domingo último, dizendo, sem eufemismos, que o que tem perpetuado a fome e a pobreza em Moçambique é a “falta do hábito pelo trabalho”, que tem feito com que haja muitos moçambicanos que “passam a vida a descansar até se cansarem de descansar”.

Numa série de intervenções que fez tanto na capital, Quelimane, como nalguns dos distritos que escalou de 12 a 17 deste mês, no quadro do périplo que está a fazer pelas 10 províncias moçambicanas, Guebuza quase não se valeu desta vez dos termos com que tradicionalmente tem atacado a apatia laboral no país, como “falta de auto-estima”, ou “falta de mudança de atitude”, dizendo claramente que não há outra explicação “à perpetua fome e pobreza” que ainda afecta mais de metade dos cerca de 20 milhões de moçambicanos, que não seja porque há muitos que ainda não assumiram que a riqueza e o bem-estar nunca cairão do céu, mas sim do trabalho árduo.

“Temos que passar a trabalhar mais e arduamente”, repetiu muitas vezes tanto no comício que orientou no começo desta sua visita no dia 12 em Quelimane, como em todos os outros que dirigiu em vários distritos zambezianos.

Para que não fosse tomado por alguém que está diagnosticando mal as causas que fazem com que mais de 60 porcento dos moçambicanos mal se possam alimentar, e muito menos ter dinheiro com que possam resolver alguns dos problemas básicos como para comprar medicamentos, Guebuza disse “não ser possível que isso aconteça num país abençoado com uma vasta gama de terras férteis, ademais, serpenteadas por vários cursos de água”. Dados estatísticos indicam que apenas quatro (4) porcento dos 39 milhões de hectares com potencial agrícola estão sendo cultivados, o que quer dizer que há mais de 35 milhões onde não se faz nada. Uma das estratégias que Guebuza anunciou como devendo ser adoptada pelo seu Governo para se acabar com a fome no país, será o desencadeamento de uma “Revolução Verde”, havendo já uma equipa de peritos que está a lançar as bases para o seu início.

Para Guebuza, não faz sentido que “os moçambicanos tenham potencialmente tudo no seu país, incluindo terras férteis cruzadas por rios caudalosos, mas ao mesmo tempo sejam pessoas que não têm nada, que vivem na pior das pobrezas”.

Em alguns dos comícios que dirigiu tão concorridos, que até pareciam tratar-se de espectadores de bons jogos de futebol que de pessoas que escutavam um estadista a falar-lhes, Guebuza teve de frear muitas vezes a sua língua, para não ir mais longe e admitir abertamente que o problema da fome em Moçambique é que “há muitos preguiçosos no país”. “Temos que admitir que não trabalhamos muito. Para sairmos da pobreza, temos de aumentar a produção, para que tenhamos mais comida este ano do que tivemos no ano passado, e assim sucessivamente em todos os anos que se seguirem ao anterior”, disse eufemísticamente, evitando assim dizer que há muitos compatriotas seus que tanto nas cidades, como nas zonas rurais, ainda não se entregam ao máximo no trabalho. Ele preferiu chamar-lhes de pessoas que “descansam sem terem feito nada, e que ficam cansados de tanto descansarem”.

TRABALHAR MAIS

“Só aqui na Zambézia, temos grandes áreas de terras férteis próprias para a prática da agricultura. Mesmo aqui à volta de Quelimane, há muitos pântanos que se fossem bem aproveitados, dariam muito arroz para alimentar toda a província e abastecer o resto do país. Mas no lugar de tirarmos máximo proveito destas terras e das águas que os rios nos trazem, passamos a vida a comprar comida dos países vizinhos, como o Malawi, só porque não produzimos no nosso próprio país. E isto faz com que paguemos um preço elevado pelo que compramos, porque temos que pagar o transporte, quando nos podia sair mais barato, se produzíssemos aqui no nosso país, aqui nas proximidades de Quelimane”, disse, olhando para o “mar” de gente que acorrera ao seu comício, no que foi visto como prova de que continua popular, tal como quando ganhou com mais de 65 porcento as eleições gerais de 2004.

Ele insistiu, em tom sério e vigoroso, que “não faz sentido que os moçambicanos continuem a comprar dos países vizinhos o que precisam para comer, quando os seus próprios solos têm a mesma composição química que a dessas nações de quem importam quase tudo”.

“Temos que passar a ter o hábito de trabalhar mais, para que possamos acabar em pouco tempo a fome e a pobreza que ainda nos afecta”, disse, antes de frisar que “apesar de ter a certeza de que estes dois males serão erradicadas no país, tal não pode ser uma missão que leve séculos a concretizar-se, porque o sofrimento que causam não se pode adiar para depois, daí que não se possa igualmente adiar-se a sua eliminação”.

Guebuza deixou claro que a menos que os moçambicanos assumam que o trabalho é o único meio que os libertará da humilhante dependência da ajuda externa, nunca sentirão de facto o sabor da independência que conquistaram com imensuráveis sacrifícios e morte de alguns dos seus melhores irmãos, como Eduardo Mondlane. Fez ver que a conquista da prosperidade era e continua a ser a principal e última meta da luta pela independência, porque esta era e é apenas o meio a partir do qual os moçambicanos passaram a ter todos os direitos que antes lhes eram negados pelo colonialismo, incluindo o de serem ricos.

Fez uma comparação com este feito histórico, dizendo que tal como antes e depois do começo da luta pela independência havia muitos cépticos que não acreditavam que seria possível derrotar-se o colonialismo, há também agora nesta nova batalha contra a pobreza, muitos que não acreditam ser possível acabar-se com este mal que tanto sofrimento e mortes causam.

Ele recordou que do mesmo modo que para se derrotar o colonialismo foi preciso que os moçambicanos acreditassem primeiro que era possível, também agora é imperioso que haja convicção de que é possível erradicar-se a fome e a pobreza.

Para tal, disse que basta que os moçambicanos se interroguem como é que os outros povos conseguiram por fim à fome e à pobreza nos seus países, “para que nós também possamos dizer que somos capazes”.

A produção agrícola deve ser a aposta dos moçambicanosHÁ QUE ENVOLVER TODOS NA LUTA

CONTRA A FOME E POBREZA
Em alguns dos comícios, como o que dirigiu a 14 deste mês em Mopeia, Guebuza foi ao ponto de sugerir que se devia recorrer à persuasão, para que mesmo aqueles que não são apaixonados pelo trabalho, passem a trabalhar também, para que sejam homens e mulheres dignos.

Defendeu a ideia de que todos devem trabalhar, porque sem o trabalho nunca se é livre da pobreza. ´´E como vocês sabem, quando se é pobre, tem-se falta de quase tudo. Não se pode ter comida suficiente. Não se pode ter uma boa casa. O pobre não pode mandar os seus filhos à escola. Não pode ir ao hospital, porque não tem como pagar a consulta, e muito menos comprar os medicamentos. Como podem ver, quando se é pobre, é quase o mesmo que estar condenado a uma morte prematura. Quem não vive bem, a vida deixa de ter-se sentido e sabor, e passa a ser um pesadelo”, argumentou, adiantando que é por isso que ele preconiza que todos os moçambicanos deviam trabalhar arduamente, para que possam viver em paz de espírito.

INCUTIR NAS CRIANÇAS O AMOR AO TRABALHO

Numa das alocuções que fez mais tarde no mesmo dia 14, na sede do distrito de Alto Molócuè, Guebuza apontou como uma das soluções quase maciça apatia pelo trabalho no país, que se passe a ensinar às crianças nas escolas o hábito pelo trabalho. Para tal, ele disse que os currículos escolares devem, de ora em diante, incrementar as praticas do trabalho manual, para que as crianças cresçam sabendo fazer coisas úteis, de modo que quando forem adultas, possam ser homens e mulheres prestáveis à sociedade.

Ele revelou que ao longo desta sua visita à Zambézia, esteve numa escola de Pebane, cujos professores já fazem isso, e que ficou positivamente surpreendido, quando as suas crianças lhe ensinaram como se faz uma enxertia. Disse que essa escola é um verdadeiro “jardim verde” e, que por isso mesmo é conhecida como “Escola Verde”, porque tem muitas árvores de fruta e de sombra.

Guebuza destacou que no dia em que se conseguir que todas as crianças moçambicanas cresçam tendo o hábito de trabalhar, quando forem adultos, não tem dúvida que nessa altura ´´a fome e a pobreza em Moçambique serão um problema do passado, tal como o é o colonialismo há já 32 anos.

Quando podermos ter crianças que terão aprendido ainda tenrinhos o hábito de trabalho antes de chegar à idade adulta, não tardará muito que falaremos do passado da fome e da pobreza aqui no nosso país, tal como hoje falamos do passado colonial, porque os moçambicanos se deram ao máximo na luta contra o colonialismo”.

GUSTAVO MAVIE, da AIM

Fonte: Notícias - 19.09.2007

Tuesday, January 23, 2007

"O que dizem é uma calúnia"

" ...minha expulsão convinha ao Presidente. Portanto, não havia motivos nem elementos ...aquele momento era crucial em que o partido devia se unir e o presidente Dhlakama devia mostrar a sua confiança em mim que já tinha servido o partido durante 20 anos e com grandes feitos. Não faz nenhum sentido que ele que era muito meu amigo e que tinha muita confiança em mim, que num momento perca confiança, porque o seu adversário disse coisas pouco abonatórias em relação ao seu ao seu amigo", Raul Domingos reagindo a acusação de Dhlakama de traidor, em entrevista ao mediaFAX.

Maputo - O antigo negociador- Chefe da Renamo no acordo Geral de Paz de Roma, Raul Domingos respondeu à sua expulsão como receio do líder, Afonso Dhlakama de "perder a liderança" daquela organização política. Dhlakama conserva a presidência da Renamo, desde a morte de André Matsangaísse, na década 80, nas matas do centro de Moçambique.
Numa entrevista ao mediaFAX, Dhlakama explicou as razões de fundo que levaram a expulsão de Domingos, que foi igualmente o seu principal conselheiro político, afirmando que ele teria traído a Renamo, pouco tempo depois das eleições de 1999, as mais disputadas de sempre entre a Frelimo e a Renamo.
"O que dizem é uma calúnia. É uma intriga política porque passam seis anos mas não há nenhum documento que o senhor Dhlakama pode apresentar para provar o que diz.", refutou Domingos as declarações de Dhlakma sobre a sua traição - ter-se entretido com a Frelimo- quando a Renamo exigia os cargos de Governadores para as províncias que teria saído vitoriosa, nas eleições Gerais de 1999, marcadas por uma forte contestação.
Nesta primeira parte da entrevista conduzida por Fernando Mbanze, Domingos esclarece o seu afastamento e outros pontos da sua carreira política na Renamo.
mediaFAX - Quais as reais causas que terão ditado, afinal a sua expulsão da Renamo?
Raul Domingos (RD) - Bom, é muito difícil dizer as reais causas que terão ditado a minha expulsão porque nem a Renamo sabe dizer as reais causas da minha expulsão. O que dizem é uma calúnia. É uma intriga política porque passam seis anos, mas não há nenhum documento que o senhor Dhlakama pode apresentar para provar o que diz. Na entrevista cedida ao mediaFAX ele diz que eu era uma pessoa mais confiada...Mas, eu duvido muito dessa confiança e amizade porque no momento em que ele devia mostrar-me amizade foi exactamente o momento em que ele mostrou-me as costas.
mediaFAX - Qual momento?
RD - O momento em que o Presidente Chissano apareceu em público a fazer acusações contra mim. Nessa altura o partido e o próprio presidente que dizia ser muito confidente e amigo e que devia aparecer em minha defesa para mostrar e provar que era meu amigo, não fez isso. Mostrou que tinha mais confiança com o adversário (Chissano). Acreditou naquilo que o Presidente Chissano e não naquilo que eu disse. Moveu-se todo um conjunto de acções que passou por uma pseudo reunião do Conselho Nacional da Renamo (pseudo porque normalmente as reuniões do Conselho Nacional são dirigidos pelo presidente do partido e esta reunião que tinha um carácter muito importante e muito sério porque tinha a ver com expulsão de um elemento que vinha desempenhando
um papel muito importante dentro do partido ele em vez de se fazer presente na reunião refugia-se a uma justificação pouco convincente de que ia viajar para Europa. Entretanto, toda a gente sabe e se pode provar que (basta pegar no passaporte dele) para ver se naquela altura ele teria viajado.
mediaFAX - Quem teria dirigido esse encontro?
RD- O Sr Ossufo Momad que como prémio hoje é o Secretário-Geral do partido. mediaFAX - Então a sua expulsão convinha ao Presidente.. ?.
RD - Pois, fica claro que a minha expulsão convinha ao Presidente. Portanto, não havia motivos nem elementos. Como digo, aquele momento era crucial em que o partido devia se unir e o presidente Dhlakama devia mostrar a sua confiança em mim que já tinha servido o partido durante 20 anos e com grandes feitos. Não faz nenhum sentido que ele que era muito meu amigo e que tinha muita confiança em mim, que num momento perca confiança porque o seu adversário disse coisas pouco abonatórias em relação ao seu amigo.
mediaFAX - Mas depois de ter observado esse afastamento, o senhor teria mostrado alguma preocupação ao senhor Afonso Dhlakama?
RD - Para o seu conhecimento já antes de todos esses cenários, já havia sinais de pouca confiança comigo. Primeiro no fim do primeiro mandato da legislatura, poucas vezes era recebido em audiência pelo presidente na minha qualidade como chefe de bancada. Termina o mandato e vamos as eleições, renovo o mandato e sou afastado da chefia da bancada. Esse é outro sinal de que algo estava mau, exactamente num momento em que a Renamo precisava de consolidar a experiência e nós vimos isso em relação ao nosso adversário, mas do lado da Renamo não foi isso que aconteceu. Afasta-se as pessoas que
já tinham alguma experiência e que deviam consolidar no segundo mandato. Essas são afastadas e colocam pessoas que não tinham nenhuma experiência parlamentar.
mediaFAX - Mas o Sr manifestou alguma preocupação?
RD - Não. Nem precisava de manifestar. Fui assistindo com alguma apreensão do que estava acontecer mas o partido tem a sua liderança e nos partidos existe uma disciplina partidária e eu em termos de disciplina partidária aceitei, mas notava que algo estava acontecer e que precisava de melhor esclarecimento.
Então quando aconteceu este episódio e ele (em vez de ficar do meu lado fica ao lado do adversário) aí percebi que efectivamente o presidente tinha perdido confiança em mim. Então a leitura que eu faço é que isto tem a ver com o protagonismo ganho por mim ao longo do meu mandato em que eu chefiei a bancada parlamentar.
mediaFAX - Quer dizer que ele via no senhor um adversário para a chefia da Renamo?
RD - Ele via em mim uma sombra. Em nenhum momento eu manifestei interesse de candidatar-me para o cargo de presidente do partido, mas ele via em mim uma sombra e por causa disso moveu toda esta operação que culmina com o meu afastamento de uma forma surpreendente para todos.
mediaFAX - quer dizer que ele não aceita adversário dentro do partido?
RD - Agora toda a gente está a perceber (passados seis anos) que ele não aceita adversários no partido. Até que já se fala de outros nomes que podem ter a mesma sorte que Raul Domingos. É assim que toda a gente no partido percebe que Raul Domingos não é traidor. Raul Domingos foi traído pelo próprio líder do partido porque não aceita que haja pessoas que mostrem certo protagonismo dentro do partido. Nota: Esta entrevista continua na nossa próxima edição (Fernando Mbanze)
MEDIA FAX – 19.01.2007

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Raul Domingos um caso encerrado?

"Eu não estou em guerra com a Renamo e nem com Dhlakama", Raúl Domingos ao mediaFAX.
Maputo - O antigo negociador- chefe da Renamo e actualmente líder do PDD, (partido da paz, Democracia e Desenvolvimento), Raúl Domingos pôs de parte qualquer possibilidade do seu regresso ao maior partido da oposição em Moçambique.
" Não sou eu que digo é o líder da Renamo que o diz. E também da minha parte é que eu não estou preocupado em voltar para a Renamo", esclareceu Domingos, nesta última parte da entrevista ao mediaFAX. A entrevista foi conduzida por Fernando Mbanze.
Dhlakama disse em entrevista ao mediaFAX que ainda existia uma pequena janela aberta de reconciliação com Domingos, mas que a readmissão não dependia dele, mas do partido no seu todo. Domingos preside igualmente o Instituto para Democracia, IPADE e lidera também um fórum de 20 pequenos partidos reunidos na frente multipartidária. Ele foi uma das personalidades da oposição convidadas para um almoço com o Presidente Guebuza, logo após o novo inquilino da Ponta Vermelha tomar posse
em Fevereiro de 2005.
mediaFAX - Ao longo destes seis anos, alguma vez teria manifestado interesse numa possível reconciliação?
RD - Tenho ouvido de vários elementos e quadros da Renamo que manifestava-se esse interesse do meu regresso, mas algumas dessas pessoas já lhes tenho remetido a esse pronunciamento de Dhlakama no mediaFAX, pois parece estar clara a intenção do senhor Dhlakama. É que o que eu percebi, há vários casos que podem ser estudados (caso a caso) mas, não o caso do Raul Domingos. Portanto, Raul Domingos é um caso encerrado. Não sou eu que digo é o líder da Renamo que o diz. E também da minha parte é que eu não estou preocupado em voltar para a Renamo.
mediaFAX - Mas em algum momento, alguma parte teria manifestado algum interesse?
RD - Eu não estou em guerra com a Renamo e nem com Dhlakama.
mediaFAX - O que isso quer dizer concretamente?
RD - Eu nunca manifestei interesse nem a Renamo nunca me convidou a regressar.
mediaFAX - Alguma hipótese?
RD - Não coloco nenhuma hipótese porque enquanto o líder da Renamo continuar a ser o senhor Afonso Dhlakama, as declarações que fez ao mediaFAX são peremptórios. Caso Raul Domingos é um caso encerrado.
mediaFAX - Dhlakama diz que a sua carreira está condenada ao fracasso, desde que saiu da Renamo. Quer comentar?
RD - A minha carreira política depende dele? Agora esse pronunciamento...bom, é o que ele diz mas o que eu acredito é se é que a minha carreira política não depende do senhor Afonso Dhlakama. A minha carreira depende de mim mesmo e, enquanto eu quiser seguir a carreira política, tenho as portas abertas do ponto de vista Constitucional, do ponto de vista legal. Assim posso fazer política sempre que eu quiser nesse país.
mediaFAX - Penso que ele quis referir-se ao sucesso na carreira...
RD - Mais uma vez digo: não dependo dele.
mediaFAX - Ele diz que o senhor e o seu partido só existem graças ao apoio da Frelimo. É verdade?
RD - Esse é que é o problema da Renamo. A Renamo está sempre a ver fantasmas. Portanto em todos os males que sucedem, a Renamo não consegue fazer uma introspecção e encontrar as falhas dentro. Sempre encontra as falhas fora. Por isso que em tudo que vai mal é a Frelimo a culpada. E hoje já também tudo que lhes vai mal é o Partido para a Paz Democracia e Desenvolvimento (PDD). Portanto, eu penso que esta é uma forma infeliz de analisar e lidar com os problemas que nos ocorrem. Agora falando da Frelimo na minha vida. Eu sinto-me feliz de estar no PDD onde fui eleito presidente. Com todas as dificuldades que estamos a passar, tal como acontece com outros partidos sem assento parlamentar, nunca assediamos e nunca tentamos estabelecer acordos com a Frelimo. Portanto, continuo tão longe da Frelimo como estava quando estava na Renamo.
mediaFAX - Afonso Dhlakama diz que o senhor andou pelas províncias a prometer dinheiro a antigos guerrilheiros da Renamo no sentido de votar no PDD e, neste momento, o senhor até tem medo de viajar pelas províncias...
RD - Ele já disse isso e vai continuar a dizer. Mas toda gente viu as últimas eleições, notou que as populações me acolheram com euforia e assim vai continuar. Eu acredito que se alguém tem problemas comigo não é a Renamo nem as populações que apoiaram a Renamo durante a guerra. Quem tem problemas comigo é o líder. Mas, eu não estou preocupado com isso, pois a verdade é que eu tenho o meu partido onde fui eleito com 93 por cento e sinto me bem e acredito que sou capaz e tenho largas possibilidade de progredir de 10.6 para números maiores.
mediaFAX - Se nalgum momento a Renamo pedir-lhe desculpas e aceitar regressar, estará disposto?
RD - Eu tenho meu partido. (Fernando Mbanze)

MEDIA FAX – 22.01.2007

Thursday, January 04, 2007

Entrevista com Jacinto Veloso

Algumas aterragens
Por Machado da Graça
O General Jacinto Veloso, no seu livro, contou-nos as suas memórias, sobrevoadas em voo rasante. A nossa proposta, na entrevista que se segue, é seguir essa mesma rota mas ir fazendo algumas aterragens em alguns acontecimentos e momentos.

Começaríamos com a morte de Eduardo Mondlane. O livro fala de antagonismo no interior da Frelimo e afirma que desse antagonismo resultou a morte de Mondlane. Ora a PIDE, através do seu agente Casimiro Monteiro, confessou a autoria do crime.
Isso é uma matéria que eu não acompanhei pessoalmente. Não participei na investigação nem nada disso. Uma análise minha a posteriore faz-me concluir que... uma acção dentro da Frelimo... claro sempre se pode dizer que é dentro da Frelimo, mas, conhecendo o sistema de actuação dos serviços secretos, é evidente que, para fazer uma acção num lugar qualquer, o ideal para uns serviços secretos é terem os seus agentes colocados. De outra maneira não vão muito longe.
Mas o pacote não passou pelos correios da Tanzânia, não tinha selos, carimbo?
Não sei explicar, não sei dizer exactamente, mas a minha convicção é que não passou. Alguém colocou o pacote junto com o correio. Um colaborador da acção colocou. Vamos dizer que era da Frelimo? ...Sim, era, mas não foi uma acção da Frelimo. Havia antagonismo entre duas facções, uma delas bastante influenciada pelo sistema colonial. Com uma solução diferente da outra.
A estranheza parte do facto de a PIDE ter confessado o crime e o sr. General o apresentar como resultado de um antagonismo interno.
Eu estou-me a situar na época. A PIDE aparece muito mais tarde. O processo de investigação, que foi conduzido por um tanzaniano, nessa época, naturalmente não disse que há um sujeito, Casimiro Monteiro, que... isso já é recente. Ele confirma que preparou aquilo e, portanto, é uma acção da PIDE.

Dezembro de 1975

O senhor General fala, muito em voo rasante, dos acontecimentos de Dezembro de 1975. O que foi aquilo, sr. General?
Aquilo é aquilo que eu digo no livro. Não sei mais do que aquilo. Só sei que foi organizado pelos sul-africanos, isso sai claro na investigação, porque eu é que dirigi essa investigação, mas não temos mais informação. É um bocado estranho, mas é isso. Pelo menos eu não tenho.
Ao fim destes anos todos continua a não se saber nada? Quem eram? Como foi resolvido o problema?
O problema foi resolvido muito simplesmente, contactou-se com as pessoas que estavam mais ou menos a liderar e elas próprias estavam convencidas de alguma coisa, que não nos explicaram muito bem, que estava a acontecer contra eles e então vieram reagir. Depois constataram, pelo diálogo, que não havia nada e regressaram ao quartel.
Mas o que é que eles queriam? O que é que exigiam, se é que exigiam alguma coisa?
Não exigiam nada. Queriam saber o que é que estava a acontecer, a ser preparado contra eles. Talvez pensassem que iam ser abandonados. Cumpriram a sua missão e agora já não eram precisos, etc.. Foi esse tipo de raciocínio.
Se bem se recorda, começava alguém a disparar num ponto qualquer da cidade e tudo quanto era guerrilheiro desatava a disparar para o ar, incluindo os defensores do NOTÍCIAS, onde eu trabalhava na altura.
Eram guerrilheiros que vinham do mato e tinham que se manifestar. Dizer: estou aqui. O que é que há? Disparo se for preciso. Era para mostrar que estamos aqui, estamos armados, temos munições, estão a ouvir? Não havia polícia que pudesse controlar uma coisa daquelas.
Resolveu-se pelo diálogo?
Resolveu-se pelo diálogo, muito facilmente. Alguns encontrei mais tarde, continuaram a trabalhar nas forças armadas. Houve umas detenções, mas foram logo libertados. Não houve nenhum problema. É daqueles assuntos que não foi bem explicado à população.
Operação Zero, introdução do Metical. Toda a gente me diz que foi uma operação feita impecavelmente, que não falhou nada, etc.. Mas... era precisa?
Era precisa porque havia uma massa de circulação de escudos coloniais que estava exactamente nas mãos dos indivíduos que pretendiam desestabilizar o país. Portanto, a Segurança do Estado tinha que tomar isso em consideração e fazer uma operação que colhesse de absoluta surpresa os detentores dessas enormes massas de dinheiro que financiavam operações contra o Estado, mas não só. Pressões comerciais e financeiras, altamente lesivas dos interesses do Estado. Portanto, não se podia dizer: agora vamos trocar o dinheiro, senão haviam de se desfazer daquilo de formas diversas e era impossível neutralizar aquela massa financeira. Isso aí não há a menor dúvida. Eu, pelo menos, não tenho.
Há um nome que é citado mais do que uma vez no seu livro: Fernandes Baptista. Conheci-o pessoalmente em casa de amigos comuns. Depois desapareceu e, mais tarde, surgiu a notícia do costume de que tinha sido morto ao tentar fugir. O que aconteceu, de facto?
Não tenho informação, realmente. Tenho a mesma informação, que ele teria fugido para o Malawi e que, no processo de fuga, resistindo a alguma detenção, teria sido abatido. Não tenho informação concreta sobre a matéria. Ele ia a minha casa e eu também ia a casa dele.

Parecia uma pessoa de nível alto...
Por isso foi escolhido para ser uma das cinco pessoas que iniciaram a Segurança do Estado, pelo próprio Presidente Samora.
A certa altura o sr. General diz que os militares sul-africanos, a Inteligência Militar, tinham apoiado Afonso Dhlakama em disputa com três outros candidatos à chefia da Renamo. Sabe-se quem eram esses candidatos?
Não procurei aprofundar isso e, portanto, preferia não mencionar.
E porquê a escolha de Dhlakama? Qual foi o critério?
Talvez fosse a pessoa com mais qualidades e com mais entendimento da situação, do ponto de vista sul-africano, que poderia liderar aquele movimento, a chamada “Resistência”. A que dava mais garantias para a continuidade de um movimento de oposição à Frelimo.
Há nomes que aparecem permanentemente quando se fala do relacionamento entre Moçambique e a África do Sul do apartheid, o general van der Westhuizen, o general van Tonder e van Niekerk, que começa por aparecer como capitão, depois como coronel e, por fim, como brigadeiro. Que tipo de gente é esta? Cumpriam apenas ordens ou eram pessoas que estavam...
Eu acho que, essencialmente, eram pessoas que cumpriam ordens, como os militares em geral. Os militares, o pessoal da segurança, cumprem ordens. E exige-se uma grande disciplina, porque têm que cumprir. Como sabe, na área militar cumpre primeiro e reclama depois. Os civis, pelo contrário, reclamam logo, antes de cumprir. Esta é uma grande diferença. Como tal, eles cumpriram ordens, para defender o sistema. Como sabe eles eram membros importantes da Military Inteligence, que era, depois da redução da importância da Boss, o serviço secreto principal de defesa do Estado sul-africano na questão do apartheid. Van Niekerk era o responsável específico por Moçambique...
Esse nome começa a aparecer, ainda antes da Independência, como assessor das tropas portuguesas...
Não tinha ideia disso... Então já vem de trás...
Pelo que me dizem ele até fala português e alguma língua moçambicana...
Está-me a dar uma notícia. Uma coisa nova, mas o facto é que ele é que é a pessoa que tem que pensar nas operações que tem que fazer, e propor depois aos seus superiores, é claro. Como apoiar a oposição, como agir em certos momentos... as próprias forças sul-africanas tinham que agir, para resolver certos problemas, questões pontuais. Enfim, era isso a organização de um serviço secreto. Uma vez terminada a razão que os leva a fazer isso eles tornam-se normais militares e, normalmente, não guardam rancores ou ódios.

Acordo de Nkomati

Nkomati. Há quem diga que Moçambique estava com medo de um ataque nuclear dos sul-africanos. O sr. General partilha essa ideia?
Não. Um ataque nuclear seria muito difícil. Os sul-africanos usaram isso nalgumas conversas particulares, não na mesa das negociações. Que eles efectivamente dispunham da arma nuclear, mas isso era usado em privado, vamos lá dizer, como uma maneira de dissuadir, de exercer pressão, como quem diz: “Vocês são muito pequeninos. Nós até temos a arma nuclear”. Mas eu nunca acreditei que eles pudessem usar a arma nuclear, porque isso tornava-se um problema de tal ordem de repercussão internacional, que a África do Sul, que dizia que estava a defender os interesses do Ocidente nesta região, perdia toda essa razão. Deixava de ter o apoio. Teria que ser condenada, o que não convinha a ninguém, nem ao Ocidente nem à própria África do Sul, portanto isso estava fora de questão. O que estava na agenda era um ataque militar, com meios clássicos. Isso não há dúvida. Agora um ataque nuclear, não, não partilho dessa opinião. Perdiam credibilidade, etc.. E os serviços de segurança, as diplomacias desses países não dariam seguimento a uma coisa dessas. Isso seria um desastre.
Um pequeno pormenor mais ou menos técnico: o sr General diz que o Acordo de Nkomati foi assinado na carruagem de comboio, mas eu fiquei com a memória de que foi assinado naquele palanque, perante o público...
Será? Está-me a colocar uma questão... Pelo menos foi rubricado na carruagem. Eu rubriquei com o Pik Botha na carruagem... Mas os Presidentes sentaram-se lá. Acho que assinaram. Ali foi a apresentação pública...
Tenho a recordação que eles se sentaram um ao lado do outro e assinaram qualquer coisa.
Devem ter assinado qualquer coisa, simbolicamente. Porque estiveram na carruagem, com a fronteira passando pelo meio da mesa... Mas agora confundiu-me um bocado... É possível que tenham concluído na cerimónia pública, mas tudo foi terminado na carruagem.
Mais adiante o sr. General diz: “De resto o ANC nunca teve bases militares em Moçambique”. Ora base, no sentido de quartel, eventualmente não teve, mas tinha bastante actividade militar...
Base, naquele sentido de que tem que ter forças, tem que ter quartéis, tem treino militar, isso é uma base. Um lugar de apoio não é uma base.
Mas, na Matola, eles fizeram túneis e ensaiavam sabotagens...
Mas isso é treino pontual. Bases era o que eles tinham em Angola. No sentido de quartel e não de pontos de apoio logístico... Eles tinham actividade militar, não há dúvida, e era a Segurança que lhes dava esse apoio. Depois de Nkomati eu já lá não estava, mas a cooperação continuou. A dado momento o sr. General diz que, em 1983, quando Prakach Ratilal deu a conhecer aos soviéticos e aos alemães do Leste a nossa intenção de aderir ao Banco Mundial, eles classificaram-nos de traidores e indeferiram a entrada de Moçambique no COMECON. Na minha memória as coisas passam-se ao contrário. Primeiro tentámos entrar no COMECON e só quando nos fecharam a porta é que nos virámos para o Banco Mundial. Havia a questão de sermos um “país socialista” ou apenas “de orientação socialista” .
Eles acabaram por nos dizer “não”. Aquilo que eu sei é que eles disseram que aquilo era um processo, levava tempo, sair dessa “orientação socialista” para uma fase mais socialista. Era essa discussão. E nessa reunião, em Budapeste ou Bucareste, o Governador do Banco disse: “Bom, nós estamos num processo de adesão”. E aí é que a resposta foi: “Então está fora de questão que possam entrar no COMECON”. Aquilo foi decisivo. Nessa época já existia a ideia de romper o cerco, de que era preciso mudar. Já estavam em curso acções desde 81, 82, através de algumas personalidades, europeias, americanas, para nos aproximar... Como é que se faz isso para aderir ao Banco Mundial, depois de tanto tempo sem nos termos manifestado.
O processo estava a andar e isso motivou o COMECON a dizer “não”. Se calhar tiveram um bom pretexto, porque não queriam Moçambique lá. Era muito subdesenvolvido e havia de consumir muitos recursos para ser um parceiro à altura dos outros, etc.. Penso que este era o raciocínio.

Lutas internas na Frelimo
Na página 208 o sr. General faz uma citação de Samora em que ele terá dito: “ Se eu morrer, o que vai ser de vocês? Acho que vão todos matar-se uns aos outros!”. Era esta a ideia que Samora tinha da Frelimo naquele momento?
Talvez não da Frelimo. Uma ideia que ele poderia ter algum receio que houvesse divisões internas que pudessem levar... matar-se uns aos outros é uma maneira de dizer... que pudessem levar a conflitos tais que poderiam desencadear um problema interno, uma guerra, sei lá o quê. Não sei, mas conflitos sérios que poderiam prejudicar a própria FRELIMO.
Uma pessoa que era o Presidente dessa Frelimo. Que se imagina que a conhecia bastante bem, ter essa visão...
Também pode ter sido dito tipo provocativo. Para dizer: “Qual é a tua opinião sobre isso?” Para provocar a resposta. De alguma maneira exagerando a situação. Penso que era este, aliás, o objectivo. Porque não teve consequências. Isso resolveu-se nos 5 minutos que se seguiram.
Mais adiante o sr. General refere a sua resistência de mais de 16 meses em agir contra a rede da CIA instalada em Moçambique. Porquê essa resistência, sr. General, se, como se diz, a CIA apoiou os sul-africanos no ataque à Matola?
A resistência de 16 meses é que, como Segurança do Estado, se eu já conheço quem é a rede de um dos principais adversários, se eu já conheço quem são, onde é que estão, onde é que moram, o que é que fazem, se eu destruir esta rede, se a neutralizar, deixo de saber. Porque a nova rede que vai ser, obrigatoriamente, pela natureza das missões, das funções do próprio serviço secreto americano, neste caso a CIA, vai-se reconstituir de uma nova maneira, em outros lugares. Portanto era preferível acompanhar e observar os agentes da CIA que estavam já presentes, sem eles saberem que nós os conhecíamos, do que neutralizar e eles virem a criar, como criaram, logo a seguir e já nos escapou completamente a operação da CIA.
Mesmo que isso implique riscos de que as informações deles ponham em causa a segurança do país?
Dentro desse processo, assim como o adversário tenta recrutar ou ganhar agentes dentro do Estado moçambicano, ou do serviço de segurança moçambicano, como aconteceu, também os serviços de segurança, os serviços secretos moçambicanos ganham agentes no outro lado. Com menos capacidades financeiras e de meios, etc., mas também era possível conhecer melhor, até porque havia alguns moçambicanos que estavam recrutados, alguns que a gente acompanhava, outros que não acompanhava, e eram vários, podíamos saber qual era o interesse do serviço secreto americano. Eu conto dois ou três casos, mas havia muito mais: quem eram os oficiais favoráveis a Moscovo, saber se já tinham chegado os Mig 16 a Nacala, esse tipo de coisas. Então nós íamos sabendo qual era o interesse deles. Uma questão importante, que chegámos a descobrir a tempo, era se Moçambique não estaria a preparar com Cuba uma operação idêntica à operação que foi organizada em Angola para parar os sul-africanos. Portanto, com tudo isto, se eu neutralizar aquela rede que eu já conheço, fico com muito menos informação e isso não permite tomar medidas preventivas.
Na pág. 259, o sr. General cita Mondlane quando ele diz que “Nós somos muito poucos para um território tão vasto. Para desenvolvermos o nosso país precisamos no mínimo de 40 ou mesmo 60 milhões de habitantes”. Porque é que a Frelimo seguiu uma política completamente oposta, de se fechar...
Eu penso que Mondlane, ao dizer isso... ele estava a explicar que não vale a pena perder energia, haver dissidências internas, porque eu sou de Niassa, ou de Cabo Delgado, portanto ir puxando à sua província, ou ao seu distrito, ou à sua etnia,
Mas ele aqui, concretamente, fala de pessoas de fora do país: “ Após a independência teremos que convidar homens e mulheres de outros países e de outros continentes para connosco trabalharem no desenvolvimento do país”.
Exactamente. Estou a tentar explicar qual era a motivação. Então ele explicava que não vale a pena. Nós já somos poucos, não vale a pena dividirmo-nos. Naquela altura falava-se de Cabo Delgado, Niassa e um bocado de Tete. Sobretudo eram aqui as grandes discussões. E dentro havia pessoal de toda a parte, do Sul, do Centro, etc.. Portanto, ele pretendia dizer que não vale a pena criarmos querelas internas quando somos muito poucos e, se calhar, temos que recorrer a outros, trazer mais pessoas de fora. O fundamental, daquilo que eu me recordo, era convencer as diversas pessoas, dirigentes e não dirigentes, de que é preciso defender Moçambique como um todo, e não a minha região ou a minha província, porque somos poucos e, provavelmente, temos que ir buscar outros. Isto significa também uma certa tolerância para viver em conjunto.
Vamos agora a um assunto um bocadinho menos sério. Há um episódio que o sr. General conta no livro e que o próprio livro desmente. É o episódio das patilhas. As patilhas que embranqueceram devido à tensão. Ora há no livro várias fotografias posteriores e esse episódio, em que as suas patilhas estão perfeitamente escuras.
(Dá umas gargalhadas) – Parecem! Parecem! Mas realmente eram muito escuras e, quando vi ao espelho, deste lado aqui tinha umas manchas brancas, de um dia para o outro, nesse momento estava sob pressão psicológica. Até pensava: “Isto pode acontecer qualquer coisa” . Só o facto de falharmos a missão que tínhamos podia ser muito frustrante, mas as fotos são enganosas.
São várias fotos que mostram umas patilhas perfeitamente escuras...
Devia ter dito para retocarem (risos)
Sr. General, ao longo do livro, são diversas vezes citados nomes como o de Urias Simango, Joana Simeão, Lázaro Kavandame, Porque é que essas pessoas tiveram que ser mortas, contrariando, de certa maneira, a conhecida política de clemência da Frelimo?
Essa é uma matéria extremamente delicada. Eu não a domino suficientemente para me pronunciar sobre ela. Portanto esta é realmente uma resposta, não é uma fuga à pergunta. Não domino a matéria. Mas a política de clemência era uma política em relação aos soldados portugueses. Alguns soldados portugueses, feridos, foram tratados. Alguns até viveram com a Frelimo vário tempo até se encontrar aquela ideia de ver se algum país os queria receber.
Mas a guerrilha em si própria... eu também não domino muito bem esta matéria... a guerrilha tinha, em qualquer parte do mundo onde houve guerrilhas, um sistema de justiça muito rígido. A disciplina da guerrilha e os julgamentos da guerrilha, e o julgamento daquilo a que eles chamaram “os traidores” em todas estas guerrilhas do mundo, tem um tratamento que não é, exactamente, do Estado de Direito. Mas, como lhe digo, isto são observações. Sobre essa matéria concreta não tenho... não domino a matéria e prefiro não me pronunciar. Apenas com estes comentários, que são muito periféricos. Talvez ajudem algumas pessoas a entender. Se calhar houve outras razões.

Conflito Leste-Oeste
Agora gostava de ir àquilo que considero a questão de fundo do livro. O sr. General, ao longo do livro todo, coloca os problemas que fomos atravessando, no conflito Leste-Oeste. E diria, se for dizer mal o sr. General me irá emendar, que coloca grande parte dos problemas que o país teve numa excessiva colagem à União Soviética, ao longo dos primeiros anos da Independência. Está correcta esta interpretação?
Parcialmente correcta. O que é importante dizer é que os aspectos negativos daquilo a que está a chamar “colagem à União Soviética” causaram realmente muitos prejuízos, mas também teve aspectos positivos, que foram importantíssimos também. Portanto, quando eu digo que o aspecto negativo causou prejuízos, quero com isso significar que, ainda que nós, os dirigentes, pensássemos que era a melhor coisa que estávamos a fazer... na altura estávamos todos de acordo... com o tempo conclui-se que, afinal, poderia ter sido diferente. Está claro que a política externa da União Soviética, na altura, era essencialmente proposta, estudada, pelo serviço secreto soviético. Nos países do terceiro mundo em geral, mas sobretudo aqui na África Austral e sobretudo Angola e Moçambique, é que davam as indicações de como é que a política deveria ser feita no interesse da defesa dos interesses da União Soviética.
Portanto, não há dúvida de que muitas das acções que a União Soviética fez em Moçambique, fê-lo na defesa da sua posição na confrontação com os Estados Unidos da América. Em muitos casos coincidiu com o interesse moçambicano, nacional, mas noutros não, foi prejudicial. Por isso eu digo que parcialmente está certo, mas não totalmente.
O afastarmo-nos da União Soviética e aproximarmo-nos do Ocidente trouxe-nos para esta situação em que estamos agora, de capitalismo aberto. Seria este o interesse nacional?
Não, eu acho que não. O interesse nacional, na minha perspectiva, como membro da Frelimo, e como político da Frelimo, é produzir riqueza, sim senhor, mas é resolver os problemas sociais e económicos do país, do povo moçambicano. Este é que é o interesse. E este é o interesse que, desde o início, existe. Só que pensámos que íamos por um certo caminho e afinal tivemos que ir por um outro caminho. Que é este caminho do capitalismo. Hoje a situação é um bocado complicada, um capitalismo um bocado selvagem, mas é uma fase. As coisas têm que evoluir para situações... não sei que país é que podemos indicar como possível modelo... olha-se para os nórdicos, mas também já estão a mudar, a Suécia já não é o que era... Mas o facto é que no mundo já não existe aquele modelo de socialismo científico. Nem em Cuba, apesar de se falar na resistência dos cubanos, ou do Partido Comunista Cubano, até porque a coisa já está bastante diluída.
Aqui há dias contaram-me uma anedota que se passa na actualidade. É uma conversa entre dois russos. Um deles diz: “O pior não foi os soviéticos terem-nos mentido sobre o que era o comunismo.” . O outro respondeu: “Então o que é que foi pior do que isso?” . O pior, disse o amigo “é que agora descobrimos que eles nos contaram a verdade sobre o que é o capitalismo”.
É isso. Agora temos que encontrar o meio termo, de maneira que seja um capitalismo que não seja muito explorador e seja mais equitativo na distribuição. Se não conseguir por um meio natural, por uma evolução natural, ou com um Estado suficientemente forte que obrigue a caminhar nesse sentido. Isso é inevitável.
Dentro dessa linha de raciocínio o sr. General vai até ao ponto de dar a entender a participação da União Soviética no desastre de Mbuzini. Se me permite, isso não é forçar um bocadinho a nota?
Bom, eu não falo da União Soviética. O que eu digo é que alguém... é uma pista, também não é uma afirmação... é uma hipótese de trabalho... alguma coisa aconteceu na cabine do avião que realmente, conjugado com o VOR que desviou a rota, que levou o comandante a iniciar a descida, como se estivesse a ir para Maputo.
Portanto, este indivíduo... se é que existiu, eu não sei se existiu... que pôde fazer alguma coisa na cabine, só podia ser um indivíduo que conhecesse muito bem a tecnologia do avião e toda a electrónica própria. Portanto é aqui que admito como uma pista este indivíduo que andou lá a visitar o avião, aparentemente um russo, ou coisa do género, que andou lá a falar com os outros, que pode ter preparado qualquer coisa que, no momento próprio, convenceu o comandante. Não compreendi até hoje porque é que o radar estava desligado. Era um radar bem moderno, a cores e tudo. Ou estava avariado, mas se estava avariado não deviam ter voado. Era razão para dizer: “Não podemos ir”. A não ser que o próprio Presidente Samora dissesse: “Não, isto é uma coisa de interesse vital e temos que ir!”. Então isso transformava uma missão diplomática numa missão militar e aí a segurança passa para segundo lugar. A missão é que é a primeira.
Então que tipo de indivíduo era este? Tem que ser um tipo de indivíduo que sabe, conhece a tecnologia e provavelmente ou fez qualquer coisa lá, deixou um aparelho, que realmente deu a indicação de que estava em Maputo. Não quero dizer a União Soviética. Pode ser um fulano dos sul-africanos que foi contratado para o efeito.
Portanto é este o sentido. Se ficou que foi a União Soviética, eu penso que não está bem, não está claro.
Mas há o mecânico russo do avião, que sobrevive, e que, ao que me dizem, acabou por ser assassinado, na Rússia, por um africano...
Essa parte eu não sei. Não tenho informação. Isto é uma especulação. Eu, se fosse um investigador, ia procurar encontrar o que é que, realmente, poderia ter acontecido para que o piloto se convencesse de que estava a descer para Maputo. A tripulação toda, o que é um bocado estranho.
Mas diz-se também que aqui, na torre de Maputo, teria sido desligado o equipamento de apoio ao voo.
Isso nunca ouvi. Na altura falou-se com o controlador, logo no dia seguinte. Não apareceu essa informação. Acho que não é correcta.
Muito obrigado, sr. General.
SAVANA – 29.12.2006

O General Jacinto Veloso concedeu uma entrevista ao Savana, a-propósito do lançamento do seu livro Memórias em Voo Rasante.

COMENTÁRIO
Por Machado da Graça
O General Jacinto Veloso concedeu uma entrevista ao Savana, a-propósito do lançamento do seu livro Memórias em Voo Rasante.
Uma entrevista em que falou de umas coisas e disse, abertamente, que não estava suficientemente informado sobre outras para delas poder falar.
Na conversa informal que se seguiu à entrevista Jacinto Veloso lembrou uma norma dos serviços secretos que é, se bem recordo as suas palavras, “Nunca mentir mas também nunca contar a verdade toda”. E eu diria que essa norma terá estado presente ao longo de toda a entrevista. Estou pessoalmente convencido de que não me mentiu mas também não tenho dúvidas de que, sobre alguns assuntos, sabia muito mais do que aquilo que revelou.
De qualquer forma este livro e o que nos diz nesta entrevista são importantes para acrescentarmos mais algumas peças ao grande puzzle da História de Moçambique. Puzzle ainda com muitas zonas vazias, à espera de outros livros de memórias de outros participantes no processo histórico moçambicano.
Ele próprio faz o desafio a que outros apresentem as suas perspectivas pessoais, eventualmente diferentes, sobre aquilo que ele recorda. Pensa o seu livro como possível fonte de polémica e debate.
Infelizmente não é isso que tem acontecido até agora. A imprensa, de uma forma geral, tem saudado o livro sem, em nenhum momento, pôr em causa seja o que fôr ou procurar aprofundar alguns dos pontos mais salientes das memórias de Jacinto Veloso. E é pena.
Muitas das fontes conhecedoras da nossa História estão, pela lei natural das coisas, a desaparecer. E pedaços inteiros vão ficando, para sempre, perdidos. Talvez para grande satisfação de uns tantos mas, sem a menor dúvida, para perda de todos nós, que ficamos privados de conhecer muito do que aconteceu, de facto, e porquê aconteceu.
Ao que suponho a lei moçambicana indica que, ao fim de 25 anos, a documentação oficial passa a ser de domínio público. O que, penso, não está a ser cumprido.
Mas, pior que isso, é que essa lei não consegue tornar do domínio público aquilo que não existe no papel e apenas nas recordações de quem viveu os acontecimentos.
São esses que têm que interiorizar a necessidade histórica de nos contarem as suas memórias.
Se não quiserem que as futuras gerações tenham uma visão falsa e deturpada de como nasceu o nosso país e de como viveu os primeiros anos da sua existência independente.
A eles apelo para que, enquanto é tempo, se ponham ao trabalho.
SAVANA - 29.12.2006

Monday, May 08, 2006

The next liberation struggle?

John Saul – The Next Liberation Struggle

Capitalism, Socialism and Democracy in Southern Africa

Excerpts (Mozambique)


The Failures of African Socialisms

… the fact remains that when holding power (after 1975) Frelimo failed to avoid the authoritarian and vanguardist practices, the stiff intolerance towards cultural diversity, and the economic strategies, top down and technocratic, that had come to characterize the Marxist-Leninist brand of Marxism elsewhere.

Indeed it could argued that Frelimo’s domestic policies stand as virtual archetypes of what not to do in Africa when seeking to build anything that might be thought of as socialism.

.., with the limited room for manoeuvre available for progressives in power in the then-polarized world of the Cold War, the party’s development agenda came to be distorted by the impact of assitance from the Eastern bloc, upon which it became overly, if almost inevitably, reliant.

…, in the event, the movement was drawn away from the peasant roots of its liberation struggle towards a model that, by fetishizing the twin themes of modern technology and ”proletarianization”, forced the pace and scale of change precipitously, both in terms of inappropriate industrial strageties and, in the rural areas, of highly mechanized state farms and ambitious plans for the villagization (”aldeias communais”) of rural dwellers.

Liberal democracy vs. Popular democracy

With the advent of parliamentary democracy and the creation of corporatist-type policy-making fora and institutions, as well as the emphasis on national reconciliation, pressures towards incorporation and demobilization have never been stronger” (Adler, Webster)

…, despite the narrowness of its victory, the post-electoral Frelimo government seemed inclined to operate, rather high-handedly, on a ”winner-takes-all” basis. Might this not, at best, produce a Mozambican version of the facto one-party state, and at worst be so provocative as merely to reactivate civil strife?

… Frelimo, once the proponent of a clear (if controversial) socialist development alternative, ran than a campaign centred on ”show-micios” and rallies in which show business, the trivialization of issues, and the glorification of the candidate took precedence over real substance.

As trade union and women’s movement structures have been liberated from the deadening hand of monoparty control, they have begun to assert themselves in new ways.



For in Africa many of the left illusions of the past have also been smashed: any notion that nationalist movements, whether spawned by active liberation struggles or other more pacific means, could merely shift gears and deliver ”socialist transformation” to the masses by ”benevolent” leaders from above, for example; and any sense that Stalinist practices, political or economic, had anything to teach us.

In this context we may even want to conceive, as I do, that Africa is standing on the brink of a crucial new phase of its history – a moment akin to that of 1945, when few could have anticipated the speed with which African nationalist movements would win independence for their territories from colonial rule (or for that matter, the speed with which that independence would in turn be translated into neo-colonial domination).